Além do acendimento da chama crioula pelos cavalarianos “Sovando os arreios” e das várias atividades promovidas no piquete do Joãozinho Legal, em frente à Cantina, o “20 de Setembro”, o mais longo movimento de revolta civil brasileiro, rende reflexões no Colégio João XXIII. O 5º e o 8º ano do Ensino Fundamental, por exemplo, analisaram materiais que trazem o outro lado da Guerra. “É uma ênfase diferente, que não fala tanto dos heróis farroupilhas”, comenta a professora de História do 5º ano Thaís Meditsch.   
 
5º ANO – No 5º ano, os lanceiros negros são os personagens principais da Revolução Farroupilha. O foco para os lanceiros dá continuidade “ao nosso estudo em relação à história e influência cultura africana”, explica Thaís. Por meio de textos e vídeos, os estudantes aprendem que “foi um movimento separatista e da elite gaúcha, que recrutou negros escravizados com a promessa de liberdade, culminando no vergonhoso Massacre dos Porongos”, relaciona a professora. 
 
Também conhecido como Batalha dos Porongos, o episódio aconteceu na noite de 14 de novembro de 1844, quando, depois de dez anos de luta por liberdade, os escravos foram previamente desarmados pelo comandante David Canabarro e pegos de “surpresa” pela tropa imperial.
 
O vídeo “Manifesto dos Porongos”, feito pelo grupo gaúcho de Rap Rafuagi, impactou nos alunos e fez com que eles entendessem bem a história dos lanceiros”, conta Thaís. “O olhar sobre os negros na Revolução é legal e diferente, algo que não tinha na época dos nossos pais”, fala João Pedro Bratkowski, do 5º A. O colega Caio Mascolo completa: “Ninguém lembra dos lanceiros negros, mas do Bento Gonçalves e do Gomes Jardim todos falam”.        
 
8º ANO – O 8º ano, nos componentes curriculares de História e Língua Portuguesa, montou um painel com pontos-de-vista contrários à Revolução Farroupilha. “A ideia é que os estudantes tivessem um espaço para externalizar seus incômodos em relação aos estereótipos sobre ser gaúcho nos dias de hoje”, diz a professora Mariana Ramos.   
 
 As reflexões originaram-se após a leitura de textos como “Não sou china nem égua, e nem quero que o velho goste”, da nativista e comunicadora Shanna Müller, e “O mito do gaúcho”, do ensaísta e pesquisador gaúcho Moacyr Flores. O hino rio-grandense também promoveu debates. "Este trabalho desacomodou verdades prontas relacionadas ao mito do gaúcho”, assegura Mariana.
 
A violência gerada pela Guerra dos Farrapos, oposições a trechos do hino e o preconceito em relação a raça e à homossexualidade, tão presente no Rio Grande do Sul, estiveram entre as reflexões dos estudantes. Marco Nool, da 8A, escreveu que a cultura gaúcha “possui muito machismo, racismo e homofobia”.  
 
O painel com os posicionamentos dos estudantes está ao lado do piquete do Joãozinho Legal. Produzido a partir de material reciclável, o local tem programação até sexta, 21/9
 
Na segunda, 17/9, uma fagulha da chama crioula foi acesa na Escola por Luiz Teixeira, um dos fundadores do grupo de cavaleiros “Sovando os Arreios”. “É uma honra sermos recebidos pelo João XXIII e por outras escolas de Porto Alegre. Acender a chama nas escolas é uma forma de levar a nossa cultura adiante”, disse Luiz. Entre os cavalarianos, estava a secretária da Direção, Carla Martins, que todos os anos integra o time de cavalarianos responsáveis por trazer uma centelha da chama para o João XXIII.     
 
Em 2018, a chama crioula foi acesa no norte do estado, em Iraí, no dia 10/8. A cerimônia, realizada desde 7 de setembro de 1947, por iniciativa de um grupo de estudantes do Colégio Júlio de Castilhos, coordenado por Paixão Cortes, recentemente falecido, marca o início dos festejos farroupilha.