Amigas e amigos do João,

Estamos em um momento de paradoxos. Vivemos dias de privações de muitas das nossas liberdades, de preocupação com nossos filhos, familiares, amigos, com nosso futuro. Momentos nos quais nos deparamos com o medo, este que, ainda que nos proteja diante das vulnerabilidades, pode nos paralisar quando desmedido.

Nos últimos dias, um texto de Christian Dunker circulou pela internet (espaço de comunicação cada vez mais íntimo a nós), no qual ele enunciava: é tempo de “arrumar a casa”. Quantas coisas não ficam, afinal, no percurso do dia a dia, esquecidas, meio abandonadas, descuidadas, como caixas fechadas esperando por uma renovação? Aquelas pessoas queridas com quem não falamos mais, as miudezas do cotidiano de nossas famílias com as quais não temos tanta oportunidade de nos aproximar, ou às quais não dedicamos devido valor, um universo de afetos que por vezes deixamos passar nas horas rápidas do dia. Nos últimos tempos, talvez muitos de nós tenhamos reaberto livros, caixas de fotografias, jogos de tabuleiros e redescoberto um pouco de nós mesmos, ou das pessoas em nossos lares...

Nem todas essas mudanças são positivas, sabemos. A temporalidade que esse momento nos impõe é, em certa medida, estrangeira: é a temporalidade da crise. Mas podemos tomar conta de muito disso. Pensadores e pensadoras têm nos ensinado que das crises também se fazem espaços novos de vida, momentos que nos permitem parar e olhar a partir de ângulos diferentes para a realidade que se apresenta. As crises nos convocam a uma visão mais sensível do que vivemos no agora, mas, ao mesmo tempo, são espaços de passagem, de travessia em relação ao que pensamos, sentimos e sabemos de nós mesmos. Nos deparamos com fragilidades inesperadas, desconhecidas, as quais assustam, mas que podem nos fortalecer.

Estar em uma crise é navegar por mares desconhecidos. Mas navegar supõe, evidentemente, alguns instrumentos e certa estratégia. O filósofo Espinosa nos atentava para essa delicada conjunção: a vida pode ser feita de bons encontros, mas, para que eles estejam presentes, precisamos de alguma disciplina – que não nos deixe à deriva –, isto é, movimentos que nos façam retomar cuidados em relação a nós mesmos, até para que possamos cuidar dos outros. É momento de ficar em casa, mas não é o momento de nos abandonarmos, ou de barrar as possibilidades de cuidado que compõem o mais transformador da nossa vida: os afetos que nos permitem navegar. Se faz urgente fortalecer vínculos, ressignificar nossas rotas para transformar o mar turbulento pelo qual estamos passando em um caminho a um porto mais seguro. Na quarentena que se faz presente, nossos lares (cada um de forma singular) são espaços estratégicos que podem nos oferecer um leque potente de alternativas.

Como administrar o barco no qual estamos diante dessa tempestade? Observar a direção dos ventos, ajustar a embarcação, rever os mapas, (re)articular a tripulação. Quanto mais altas as ondas, mais fortes os ventos, maior é a exigência de nossa tripulação; para que superemos isso, todos os tripulantes precisam se apoiar e trabalhar juntos, em suas possibilidades e habilidades.

Neste momento, acreditamos que é visceral pensar estratégias criativas e sensíveis para que o vírus fique isolado, mas também para que estejamos cada vez mais presentes e próximos. E quais ações podemos fazer agora? Quais são as ferramentas que temos? O que é, afinal, indispensável? Podemos exercer agora um cuidado pela via das nossas redes de afeto. Retomar as possibilidades do nosso cotidiano, os saberes e fazeres do dia a dia que nos aproximam, aqueles que já conhecemos e aqueles que agora nos exigem um reconhecimento. Revisitar o contato consigo e com o outro. É hora de aguçar a nossa escuta, em relação ao que os outros sentem, mas também ao que sentimos, de cuidar e permitir-se ser cuidado. E isso talvez possa começar nesse desafio enunciado por Dunker: hora de “arrumar a casa”. E é nessa arrumação em que também estamos trabalhando aqui no João – mesmo que sem os abraços do cotidiano. Por isso, continuem contando conosco para atravessar essa crise. Estamos na mesma tempestade e, com certeza, chegaremos a um porto seguro. Juntos. 

 

Cristiano Hamann

Psicólogo – Colégio João XXIII

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