Djamila Ribeiro dá aula sobre antirracismo

O silêncio é cúmplice da violência. Por isso, o racismo precisa ser nomeado. Como poderemos pensar em soluções para algo que não é dito?” Esta foi uma das principais “lições” da filósofa, professora, ativista e escritora Djamila Ribeiro na aula-palestra online conferida na última sexta-feira, 26 de junho, aos estudantes do 9º ano do Colégio João XXIII. O projeto interdisciplinar agregou as disciplinas de Biologia, Língua Portuguesa, História e Geografia gravitando em torno de seu livro "Pequeno Manual Antirracista" lançado no ano passado e um dos mais vendidos atualmente no País 

A matemática histórica não deixa margem para dúvidas. O Brasil foi o último país das Américas a abolir os escravos, com o regime de escravidão vigorando em mais de três dos cinco séculos de colonização. E esta é a origem social da desigualdade, chamou a atenção Djamila. Considerada uma das principais vozes do letramento racial brasileiro, ela também lembrou a total ausência de políticas de reparação. “Foi como se dissessem: vocês não são mais escravos, podem seguir suas vidas. Nenhuma ação afirmativa, como aconteceu com os imigrantes, por exemplo, que receberam terras. E hoje as pessoas ainda estranham as cotas nas universidades”, ressaltou. Ex-professora de uma escola pública de periferia, ela lembrou que a maioria dos seus alunos vivia em condições precárias, muitos deles já trabalhando para sobreviver. A universidade - apesar de localizada muito próxima à comunidade em questão - não era sequer cogitada como alternativa de futuro. “Discutir racismo no Brasil, portanto, é debater condições concretas, não capacidade, pois o racismo é algo estrutural e não individual. Não é possível pensar ou estudar o Brasil sem considerar a questão racial”, explicou.

Unicórnio

Na conversa - que correu livremente, com intervenções dos estudantes -  Djamila refutou o termo “racismo reverso”. “Seria como acreditar em unicórnio”, comparou, “isso poderia ser considerado apenas se tivessem existido navios branqueiros. Não se trata apenas de preconceito, mas de um sistema de opressão. Para que existisse o racismo reverso, teríamos que ter poder de oprimir e a população negra não tem”. Ela também exemplificou situações cotidianas capazes de passar despercebidas, entre elas o “racismo recreativo”, constituído do deboche e considerado “brincadeira” ou a estranheza ao ver uma mulher ou um homem negros em lugares da sociedade normalmente ocupados por brancos.  “Certa vez eu estava em uma sala de embarque internacional e uma mulher me perguntou se eu ia dançar na Europa”, relatou.

Ao falar um pouco de sua experiência de vida. Djamila definiu-se como “a exceção que confirma a regra”. Primeira de sua família a chegar à universidade, é filha de um pai estivador e um mãe doméstica. “Minha vó e minha bisavó também foram domésticas e minha tataravó, escrava”. Sua família era de militantes. “O pai nos levava nas reuniões e também ao teatro. Ele pedia para a gente olhar em volta e perguntava: Quantos negros estão vendo além de nós?”. Este exercício de observar o ambiente, os comportamentos, as reações, as palavras e até as bibliografias, no caso das escolas, é essencial para a tomada de consciência e  prática do antirracismo. Diante de uma atitude racista, mesmo ingênua e inconsciente, é preciso parar e debater a respeito, pois “é preferível se chato do que ser omisso”, ressaltou.  “é necessário ter humildade para ouvir, para aprender. Vai incomodar, vai doer, mas só assim mataremos o opressor que existe em nós”, concluiu.

Origens

O encontro com Djamila Ribeiro foi organizado a partir de um “aulão” de Biologia e História, com foco na desconstrução do imaginário que cerca a abolição da escravatura. O tema também pautou estudos sobre a evolução biológica e as teorias do racismo científico traçando um olhar histórico sobre as consequências de ambos os processos na vida da população negra e na forma como nossa sociedade se organiza. Paralelamente, na disciplina de Língua Portuguesa, o 9º ano estudou autoras negras sendo apresentado aos escritos de Djamila Ribeiro. "Ela é potência inspiradora para nós, educadoras e educadores, que nos responsabilizamos e assumimos um papel responsivo na luta antirracista! Sinto-me ainda mais implicada no sentido de debater sobre o racismo, um sistema opressor que nega direitos aos nossos jovens! Obrigada, companheira Djamila, por compartilhar conosco tantos saberes e nos conduzir a caminhos possíveis!", avaliou professora de Língua Portuguesa Aline Braga de Lima. 

Igualmente entusiasmado, o professor de Biologia Bruno Correia de Oliveira comentou: “Realizar o debate racial de maneira qualificada nas instituições de ensino é uma urgência quando nos encontramos em uma sociedade que exclui e mata pessoas tendo como critério os seus fenótipos. É preciso ir na contramão, é preciso não reproduzir, é preciso ser antirracista na defesa da vida das pessoas. Djamila nos traz com sua fala consistente a informação que convoca à ação. Fazendo memória às vozes dos ancestrais, nos situa no presente de maneira didática, acessível e emocionante. Foi uma honra contar com a presença tão única da Djamila, junto a um grupo de estudantes engajados, educadores comprometidos e uma escola coerente com seus princípios.

Fizeram parte do evento – além dos professores, professoras e coordenadoras – os estudantes Benjamim Borges, Isabela Becker, Manuela Fontana, André Prediger, Paulo Gabriel Rodrigues, Vicente Schmitz, Bruno Veronez e Isabela Wey. O encerramento emocionou a palestrante com o estudante Pedro Custódio recitando o poema de Oliveira Silveira: “(...) encontrei minhas origens/na cor de minha pele/nos lanhos de Minha alma em mim/ em minha gente escura/em meus heróis altivos/encontrei/encontrei-as enfim/me encontrei”. Ao se despedir, Djamila deixou a porta aberta: “É muito importante o que esta escola está fazendo. Quando quiserem, me chamem de novo que eu venho”.